Citação #1

Um pensamento que encontrei enquanto passava os olhos em um livro que ganhei recentemente, e que acredito caber em todas as práticas, seja ela cultural, filosófica ou marcial:

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O treinamento e a disciplina comuns a todos os Caminhos, marciais ou culturais, se compõem de três níveis de maestria: o físico, o psicológico e o espiritual. No plano físico, o essencial do treinamento é o domínio da forma (kata). O instrutor apresenta uma forma que serve de modelo; o aluno observa cuidadosamente e a repete tantas vezes quantas sejam necessárias para internalizá-la completamente. Não são ditas palavras e nem dadas explicações; o peso da aprendizagem recai sobre o aluno. Ao alcançar o domínio pleno da forma, o aluno é liberado de sua fidelidade a ela.
Essa liberação ocorre devido à mudanças psicológicas internas que vão acontecendo desde o início. A rotina de aprendizagem tediosa, repetitiva e monótona põe à prova o compromisso e a força de vontade do aluno, mas também reduz a obstinação, refreia a voluntariedade e elimina maus hábitos corporais e mentais. Nesse processo, começa a emergir a sua verdadeira força, o seu verdadeiro caráter e potencial. A maestria espiritual é inseparável da psicológica, mas só tem início depois de um longo período de treinamento intensivo.

UESHIBA, Kisshomaru. O Espirito do Aikido, São Paulo: Cultrix.

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O Muro de Cristal pt – 10

“Ela deve ocorrer de forma tão espalhada e distorcida que raramente – se nunca – foi compreendida no seu todo por qualquer peixe, para formar uma imagem coerente”, comentou Arco-Íris.

“Sim, provavelmente você está certa”, concordou ele. “Subitamente me sinto desejoso de informações, mas de informações de tipo especial – principalmente sobre o tipo de vida lá do topo do aquário – que me parece completamente impossível de ser adquirida para um habitante das águas intermediárias e profundas como eu”.

“Mas mesmo que a informação de segunda-mão, que acontece de vir até nós a partir de outras fontes seja distorcida em alguns aspectos, eu poderia – se apenas soubesse o que é que estou procurando -, acumular informações suficientes que me habilitassem a obter uma visão geral do aquário e assim eu seria capaz de expandir a minha visão para além dos seus limites”. Continuar lendo

O livro de Toth

Videos de Frater Goya sobre o Tarot de Toth, criado por Aleister Crowley com pinturas de Lady Frieda Harrys nas primeiras décadas do século passado.

Tem por curiosidade três cartas d’O Mago, saido do censo dos tarôs convencionais, que possuem apenas um.
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O Muro de Cristal pt – 9

“Você ainda está aí?”, perguntou Arco-Íris. “O que há de novo?” “Bem, cá estou eu mais ou menos resignado a uma provavelmente longa e intensa…

talvez nobre… luta contra os níveis mais profundos do meu cérebro primitivo”, respondeu Barbatanas Vermelhas.

“Por que?”  “Por que o quê?” respondeu Barbatanas Vermelhas. “Para que lutar ou por que lutar contra um cérebro primitivo?” “Não… por que nobre? “, disse Arco-Íris.

“Desde o meu primeiro vislumbre da dimensão mais elevada”, explicou Barbatanas Vermelhas, “fui capaz de deduzir a existência de uma série de dimensões cada vez mais altas, conduzindo à Dimensão Maior, cuja natureza exata não consigo precisar, mas, de acordo com os meus cálculos, mesmo essa Dimensão Última deveria nos estar visível neste preciso momento, se soubéssemos como olhar”.

“E assim eu espero obter uma visão permanente das dimensões mais elevadas”. Continuar lendo

O Muro de Cristal pt – 8

“Eu posso concordar com isto”, disse Nariz de Garrafa.

“E que este nosso mundo parece estar rodeado por um aquário vastamente maior, do qual o nosso é apenas uma pequena parte”, continuou Barbatanas Vermelhas.

“Penso que você está absolutamente correto”, concordou Nariz de Garrafa, meneando pensativamente a sua cabeça o melhor que podia já que sendo um peixe ele não possuía um pescoço.

“…E que o propósito da existência do nosso aquário… assim como de nós todos… é provavelmente puramente decorativo… O que está acontecendo com você?”, perguntou Barbatanas Vermelhas, quando viu que o outro peixe se afastava dele, chocado. Continuar lendo

O Muro de Cristal pt – 7

“Você viu?”, perguntou Barbatanas Vermelhas sofregamente. “Você precisa me contar tudo!” “Não posso”, respondeu Nariz de Garrafa.

“Mas por que não?” exigiu Barbatanas Vermelhas.

“Porque eu não me lembro dos detalhes, este é o porquê. Eu desmaiei.” “Ah! Tem de ser a mesma coisa que eu vi”, disse Barbatanas Vermelhas animado, “por  que eu também desmaiei”.

“Nós dois desmaiamos”, disse Nariz de Garrafa. “Então nós dois vimos a mesma coisa… Raciocínio estranho, Barbatanas Vermelhas”.

“Está bem! Está bem! Concordo com você que esta não é a lógica mais impecável do mundo”, disse Barbatanas Vermelhas, “mas existem boas chances de que nós dois vimos a mesma coisa. Portanto não foi um sonho ou uma alucinação. E isto quer dizer que existe algo maior do que o nosso próprio mundo. Continuar lendo

O Muro de Cristal pt – 6

“Isto ensinaria aqueles bundas-moles”, disse ele e imediatamente notou que estava falando consigo mesmo, novamente, então cerrou firmemente a sua boca e ficou ali num silêncio teimoso.

Mas o sol continuou ali a brilhar com a sua luz laranja, e de certa forma, ele ficou contente. Na realidade ele não estava pronto para algo assim tão drástico, mas de outro lado podia perceber que o choque da sua nova percepção estava se diluindo rapidamente.

Talvez ele estivesse precisando de um novo choque para faze-lo seguir adiante ou então – e logo -, ele poderia vir a esquecer de tudo o que ocorrera e então talvez viesse a mergulhar de volta ao seu estado de esquecimento anterior e voltar a ser como todos os outros peixes.

Ele enviou os tentáculos do seu pensamento para a frente, procurando gerar uma imagem que abraçasse todo o aquário. Continuar lendo