A Cruz – parte 4

Na Ásia, se o simbolismo da cruz não tem a mesma riqueza mística que no mundo cristão, não deixa de ter relevância. Não seria o caso de estudar algumas linhas um  simbolismo tão vasto quanto o da cruz, ao qual Guénon consagrou um volume inteiro. Tal simbolismo repousa essencialmente sobre o fato de que a cruz é constituida pelo cruzamento de eixos direcionais, que se podem considerar de diversas maneiras, seja neles mesmos, seja no seu cruzamento central, seja na irradiação centrífuga. O eixo vertical pode figurar ainda a atividade do Céu ou de Purusha; o eixo horizontal, a superfície das águas, sobre a qual ela se exerce, e que corresponde à Prakiti, a substância universal passiva. Os dois eixos são, ainda, os dos solstícios e equinócios, ou o encontro desses com o eixo dos pólos. Obteríamos, então, uma cruz em três dimensões, que determina as seis direções do espaço.

A cruz direcional, que divide o círculo em quatro, é intermediária entre o ccírculo e o quadrado, entre o céu e a terra, o símbolo portanto, do mundo intermediário, e também do Homem universal, na Tríade chinesa. É, segundo São martinho, o emblema do centro, do fogo, do Intelecto, do Princípio. Convergência das direções e das oposições, local do seu equilíbrio, o centro da cruz corresponde efetivamente ao vazio do meio, á atividade central não-operante, ao Meio Invariável (tchong-yong). A cruz é também – acabamos de eprceber que o círculo dividido era uma roda – o emblema da irradiação do centro, solar ou divino. Por que ele significa a totalidade do espaço, a cruz representa na China o número 10, que contém a totalidade dos números simples (Wieger).

A cruz vertical e central é, ainda, o eixo do mundo, o que está bem exemplificado no globo que tem ao alto uma cruz polar, símbolo imperial que os alquimistas identificavam com o cadinho regenerador.

Cumpre ainda lembrar o plano cruciforme dos templos hindus e das igrejas, nos quais a cabeça corresponde à abside, os braços ao transcepto, o corpo e as pernas à nave, o coração ao altar ou ao lingam.

Encontra-se em Abu Ya’qub Sejestani uma interpretação esotérica toda particular do símbolod a Cruz, cujos quatro braços são identificados às quatro palavras da Shahada, que éa profissão de fé muçulmana.

Nos Egito, a Cruz ansada (Ankh), muitas vezes confundida com o nó de Ísis. É o símbolo de milhões de anos de vida futura. Trata-se de um signo formado por uma argola redonda ou oval da qual pende uma spécie de Tau. Lembra um nó de fita. É um dos atributos de Ísis, mas pode ser visto na mão da maior parte das divindades, como emblema da vida e da eternidade.

Nas mãos dos mortais, ela exprime o desejo de uma eternidade venturosa, na companhia de Ísis e Osíris. Seu círculo é a imagem perfeita daquilo que não tem nem começo nem fim… a cruz figura o estado de transe, no qual se debatia o iniciado; mais exatamente, ela representa o estado de morto, a crucificação do eleitoe, em certos templos, o iniciado era deitado pelos sacerdotes num leito em forma de cruz. Costumava ser aplicada à fronte do faraó e dos iniciados como que para lhes conferir a visãod a eternidade para além dos obstáculos ainda por vencer. é apresentada pelos deuses aos defuntos, observa Maspero, como um símbolo de vida eterna, cujos eflúvios são vivificantes.

Para Paul Pierret, é igualmente um símbolo de proteção dos mistérios sagrados. Havia numerosos amuletos (Ta ou fivela de cinto) em pedra dura, em pasta de vidro ou em madeira de sicômoro dourada. As mais das vezes em jaspe ou em quartzo vermelho, opaco, que se pendurava ao pescoço da múmia… O texto especial do capítulo 46 do livro dos mortos, gravado sobre esse filactério, confiava o defunto à proteçãod e Isis.

Na arte africana, os motivos crucíferos, com as linhas ou com folhas de mandioca, são numerosos e ricos de significado. A cruz tem, em primeiro lugar, um sentido cósmico; indica os quatro pontos cardeais; significa a totalidade do cosmo. basta acrescentar um círculo em cada extremidade e ela passa a simbolizar o sol e seu curso. Terminada em arcos de círculo, ela representa, para Bamoun, o rei. Encruzilhada, ela exprime também os caminhos da vida e da morte, uma imagem do destino do homem. Entre os peúles, é costume, quando entornam o leite, desastradamente, molharem os dedos nas gotas ou na poça e desenharem no peito uma cruz.

A associação cruz-espiral resume a organização do mundo segundo o pensamento dos bantos do Kasai no Zaire (Congo, Lulua e Baluba). O eixo vertical dessa cruz une a terra (morada dos homens e, na sua expressão ctoniana, das almas mortas) ao Céu Superior, morada do Deus Supremo. Ele próprio está no centro dee uma cruz, nos braços da qual assistem os quatro gênios superiores, seus assessores. O eixo horizontal liga o mundo dos gênios bons (a leste) ao dos gênios maus (a oeste). O centro dessa cruz primordial é a encruzilhada da Via-Láctea, onde as almas dos mortos, depois de terem franqueado uma ponte, são julgadas e, em seguida, dirigidas par a esquerda ou para a direita (a leste ou a oeste), segundo seus méritos. De um para outro desses quatro planos primordiais, Gênios, Espiritos e Almas evoluem em espiral.

Essa construção arquetípica preside à ordenação arquitetural dos compartimentos e lugares de reunião bem como à disposição hierárquica norte, sul, leste, oeste, as casas de saus quatro mulheres. Também nas clareiras onde se reúnem os membros das Sociedades Secretas, os Quatro Grandes Iniciados instalam-se em torno do centro, lugar do chefe supremo, invisível, na interseção dos braços da cruz e de uma espiral, igualmente originada desse centro. Para as mesmas populações, a cruz tatuada, gravada, forjada etc. simboliza, ao mesmo tempo, os pontos cardeais e as quatro vias do universo que levam a morada dos Gênios (Céu ou Norte), à dos homens (embaixo), à das almas boas (leste) e à das más (oeste).

A cruz, screveu Guénon, é, sobretudo, símbolo da totalização espacial… O símbolo da cruz é a uma união dos contrários… que se deve comparar tanto com o Kua (união do Tang e do Yin) quanto com a tetraklis pitagórica. Esse simbolismo é particularmente sensível na tradição mítica dos mexicanos antigos. A cruz é o símbolo da totalidade do mundo, e a ligadura central dos anos. Quando os antigos escribas procuravam rpresentar o mundo, eles agrupavam em forma de cruz grega ou de cruz-de-malta os quatro espaços em volta do centro. Melhor ainda: a mitologia mexicana nos dá toda a paleta simbólica que vem se agrupar sob o sinal-da-cruz: é Xiuhtecutli, o deus fogo, que habita a fornalha (centro) do universo. Lugar da síntese, esse centro tem uma aparência ambígua: um aspecto nefasto e um aspecto favorável. Enfim, no Cédex Bórgia, o centro é figurado por uma árvore multicor, cuja ambiguidade vertical não deixa dúvida. É coroada por um Quetzal, o pássaro do Leste, e brota do corpo de uma deusa terrestre, símbolo do Ocidente. Acresce que essa árvore cósmica está flanqueada de um lçado pelo deus Quetzalcoatl, o deus que é sacrificado na fogueira para dar vida ao sol; do outro, por Macuilxochitl, deus da aurora, da música, da dança, do amor.

Para o índio da América, como para os europeus, a cruz romana é o símbolo da árvore da vida, representada por vezes sob uma simples forma geométrica, por vezes com extremidades ramificadas ou foliáceas, como ans célebres cruzes de Palenque.

No Códex Ferjervary Mayer, cada um dos pontos cardeais da terra vem repesentado por uma árvore em forma de cruz coroada com um pássaro.

Em certos códices, a árvore da vida é representada por uma cruz de Lorena, que tem, nos braços horizontais, sete flores, representando sem ambiguidade a divindade agrária. Em outros casos, o septenário divino é representado por seis flores e o Pássaro Solar no meio do céu.

Ao fim do seu estudo sobre a significação dos pontos cardeais para os mexicanos antigos, J. Soustelle pode dizer que a cruz é o simbolo do mundo na sua totalidade.

Fonte:

CHEVALIER, Jean, Dicionário de Símbolos, 22ª Edição, 2008 José Olympio Editora, pp 309-317

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