A Cruz – Parte 2

A Cruz – Parte 1

Nos desenhos de cruzes gregas com dois braços transversais veem-se as iniciais gregas do nome de Jesus Cristo e a palavra NIKE, que significa vitória. Ao pé de uma dessas cruzes se erguem um falcão de asas abaixadas e uma águia de asas abertas; ao pé da outra cruz, dois pavões de caudas oceladas; uma dessas cruzes é trançada de fitas, significando a união das duas naturezas, humana e divina, no Verbo encarnado; e outra cruz é feita de fitas entrelaçadas, com a mesma significação.

Na sua História de Deus, tão rica sob tantos aspectos, M. Didron dá um perfeito exemplo de adoçamento do símbolo em alegoria, e isso o leva, a nosso ver, a um verdadeiro contra-senso numa de suas interpretações. ele registra um grande número de cruzes gregas aos pés das quais se afrontam animais que, diz ele, olham com terror ou com amor o signo da redenção sob o qual eles parecem humilhar-se. O leão, a águia, o pavão, o falcão são os animais que mais frequentemente se veem.; o falcão e o leão, que lembram a violência cruel e a crueldade grosseira, poderiam muito bem significar que essas más paixões são obrigadas a passar sob o jugo da cruz. A pomba e a Ovelha, que se encontram amiúde nos afrescos das catacumbas e nos sarcófagos antigos poderiam anunciar que as virtudes brotam da cruz como os vícios são abatidos por ela. Aqui, a alegoria só reteve um aspecto do símbolo, o mais exterior, o mais afastado da sua realidade profunda. Pensamos, ao contrário, que todas essas figuras não fazem mais que exprimir um dos aspectos da figura inumerável do Cristo. Nenhuma imagem esgota a riqueza do verbo Encarnado, como nenhum nome traduz o infinito da divindade. Remeta-se o leitor aos verbetes que lhes são reservados. O leão afirma a realeza do Cristo, que triunfa da morte pela sua morte na cruz; o pavão de asas oceladas significa a revelação pelo Verbo da Sabedoria divina, a águia revela sublimidade do salvador, que vive nas alturas; o falcão, a perspicácia da visão profética.

Esses animais não estão esmagados ao pé da cruz, como aconteceu em outros casos. Estão de pé, direitos, em toda a sua glória. Por que ver aqui oposição, e dizer que há semelhança com o Cristo quando são pombas e cordeiros os animais representados? é o mesmo processo de identificação que vale para todos esses animais ao pé da cruz. Quando eles não são esmagados, servem para pôr em relevo, simbólicamente, um dos aspectos da própria personalidade do Redentor.

Em outras cruzes características, observam-se as duas primeiras letras de Christos, em grego, XP, o Rho atravessando o X como um eixo vertical. Observam-se, igualmente o alfa e o ômega, significando que o Cristo é o começo e o fim da evolução criadora, o ponto alfa e o ponto ômega. Outros monogramas apresentam no mais curto dos braçoss (com sêxtupla ramificação) as iniciais de Jesus Christo, o iota servindo de eixo em lugar do Rho. Alguns desses monogramas inscrevem-se num quadrado, referindo-se, dessa maneira, à vida terrestre e humana do Cristo. Outros, num círculo, como numa roda mística, evocando sua vida celeste e divina.

O poder do simbolismo nos primeiros séculos cristãos revela-se ainda na cruz mística, gravada na pedra, que reproduzimos. O sinete traz gravada uma cruz em tau (T); o chi (X) atravessa a haste do tau, que se arredonda em rho (P) por cima. O nome do Cristo e a forma da sua cruz estão resumidos nessas linhas. O Cristo, filho de Deus, é o começo e o fim de tudo; o alfa e o ômega, começo e fim dos simbolos intelectuais e, por extensão, da própria inteligencia e da alma humana, escoltam, por assim dizer, a cruz, à direita e à esquerda. A cruz esmagou e domou Satanás, a antiga serpente. A serpente se enrola, então, acorrentada, ao pé da cruz. esse inimigo do gênero humano procura pôr a perder a alma, que é representada sob a forma de uma pomba. Mas a pomba, por ameaçada que esteja, olha a cruz, de onde lhe vem a força, e que a salva do veneno de Satã. A palavra SALUS, escrita no solo que sustenta a cruz e as pombas, é o canto de triunfo que o cristão fiel entoa em honra de Jesus e da cruz.

Prosseguindo, sua evolução no mundo dos símbolos, a Cruz se torna o Paraíso dos Eleitos. Uma edição da Divina COmédia, de 1491, mostra a Cruz no meio de um céu estrelado, cercada de bem-aventurados em adoração. A cruz é, então, o símbolo da glória eterna, da glória conquistada pelo sacrifício e culminando numa felicidade extática. Só Dante poderia evocar uma visão dessas:

… Sobre essa cruz o Cristo resplandecia a tal ponto que eu não saberia encontrar imagem para represená-lo;

mas aquele que toma a sua cruz e segue o Cristo me desculpará por não saber exprimi-lo, quando vir, na dita claridade, o Cristo brilhando como o relâmpago…

CHEVALIER, Jean, GHEERBRANT, Alain, Dicionário de Símbolos, José Olympio Editora, 22ª Edição, 2008, pgg 309-317

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Um comentário sobre “A Cruz – Parte 2

  1. Possivelmente até o tempo de Cristo a cruz era tida apenas como instrumento de sacrificio. Depois da morte de Cristo ela passou a ser santificada, concorda? Gostei muito do artigo.

    @ – Luciuxlynx – Obrigado pelo comentário Alci, mas não posso concordar. Como digo na primeira parte do artigo, a Cruz é um dos simbolos mais difundidos ao redor do mundo, aparecendo em diversas culturas em tempos distintos, e são vários os significados que ele carrega, sendo justamente o simbolo de sacrifício atribuido a cruz pelo Cristianismo, pois é o simbolo de morte do Cristo, significado este que não aparece em nenhuma outra cultura.

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