O Muro de Cristal pt – 10

“Ela deve ocorrer de forma tão espalhada e distorcida que raramente – se nunca – foi compreendida no seu todo por qualquer peixe, para formar uma imagem coerente”, comentou Arco-Íris.

“Sim, provavelmente você está certa”, concordou ele. “Subitamente me sinto desejoso de informações, mas de informações de tipo especial – principalmente sobre o tipo de vida lá do topo do aquário – que me parece completamente impossível de ser adquirida para um habitante das águas intermediárias e profundas como eu”.

“Mas mesmo que a informação de segunda-mão, que acontece de vir até nós a partir de outras fontes seja distorcida em alguns aspectos, eu poderia – se apenas soubesse o que é que estou procurando -, acumular informações suficientes que me habilitassem a obter uma visão geral do aquário e assim eu seria capaz de expandir a minha visão para além dos seus limites”.

“Não pode ser assim tão fácil” disse Arco-Íris.

“Sim, pode ser” disse Barbatanas Vermelhas. “Não é nada mais complicado ou espantoso do que as convenções psicológicas que nos torna impossível ver para além do muro de cristal nesse preciso momento”.

“Você quer dizer que se pudéssemos quebrar essas convenções psicológicas, a nossa visão não estaria confinada aos limites do nosso mundo?”, perguntou Arco-Íris com algum espanto. “Certamente, mas apenas pelo fato de conhecer uma barreira psicológica – mesmo o quão efêmera ela realmente é- não faz com que ela desapareça”.

“Maravilhoso!”, replicou entusiasticamente Arco-Íris, “eu gostaria de ver esse novo mundo aqui e agora, neste preciso momento!”.

“É mais fácil falar do que fazer”, suspirou Barbatanas Vermelhas; “a barreira psicológica sinistra – que é o nome que dou para a rejeição automática que o nosso cérebro faz das percepções da dimensão mais alta que se situa logo por fora do muro de cristal – se instalou como um abismo ainda mais intransponível do que a própria barreira de cristal, se colocando entre nós e nossas percepções da dimensão mais alta”.

“Mas deve haver algum modo de quebrar esses condicionamentos”, disse Arco-Íris pensativamente.

“Acredite em mim, Arco-Íris”, disse Barbatanas Vermelhas, “eu já tentei de tudo: meditação, auto-negação, treinamento mental, hipnose, jejuns, ataques epilépticos autoinduzidos, choros amargos e inclinações contra o muro de cristal – e mesmo oração – mas nada parece funcionar”.

Eles ali permaneceram suspensos na água, ambos num estado de sombria depressão, ocasionalmente realizando um esforço desanimado para engolirem alguns bocados de comida à medida que esta deslizava por eles a caminho do fundo do aquário.

E os dias se seguiram monótona e desoladamente, mas a barreira sinistra continuava tão poderosa quanto antes. A memória de Barbatanas Vermelhas se tornou vaga, desinteressante e apagada, e neste ponto ele não mais pensava que viria a ver novamente a dimensão mais elevada, e Arco-Íris estava inclinada a concordar com ele…

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