A Cruz – Parte 1

     A cruz é um dos símbolos cuja presença é atestada desde a mais alta Antiguidade: no Egito, na China, em Cnossos, Creta, onde se encontrou uma cruz de mármore do séc XV a.C. A cruz é o terceiro dos quatro símbolos fundamentais, justamente com o centro, o círculo e o quadrado. ela estabelece uma relação entre os três outros: pela interseção de suas linhas retas, que coincide com o centro, ela abre o centro para o exterior; inscreve-se no círculo, que divide em quatro segmentos; engendra o quadrado e o triângulo, quando suas extremidades são ligadas por quatro linhas retas. A simbologia mais complexa deriva dessas singelas observações: foram elas que deram origem à linguagem mais rica e mais universal. Como o quadrado, a cruz simboliza a terra: mas exprime dela aspectos intermediários, dinâmicos e sutis. A simbólica do quatro está ligada, em grande parte, à da cruz, principalmente ao fato de que ela designa um certo jogo de relações no interior do quatro e do quadrado. A cruz é o mais totalizante dos símbolos.

     Apontando para os quatro pontos cardeais, a cruz é, em primeiro lugar, a base de todos os símbolos de orientação, nos diversos níveis de existência do homem. A orientação total do homem exige… um triplo acordo: a orientação do sujeito animal com relação a ele mesmo;a orientação espacial, com relação aos pontos cardeais terrestres; e, finalmente, a orientação temporal com relação aos pontos cardeais celestes. A orientação espacial se articula sobre o eixo  Este-Oeste, definido pelo nascer e pôr-do-sol. A orientação temporal se articula sobre o eixo de rotação da Terra, ao mesmo tempo Sul-Norte e Embaixo-Em Cima. O cruzamento desses dois eixos maiores realiza a cruz de orientação total. A concordância, no homem, das duas orientações, animal e espacial, põe o homem em ressonância com o  mundo terrestre e através dele*. Não seria possível condensar melhor os significados multiplos e ordenados da cruz. Uma síntese semelhante se verifica em todas as áreas culturais e se expande nelas em inúmeras variações e ramificações.
Na China, o número da Cruz é o 5. A simbólica chinesa… nos ensinou de novo a não considerar jamais os quatro lados do quadrado ou os quatro braços da cruz fora da sua relação necessária com o centro da cruz ou com o ponto de intereseção dos seus braços… O centro do quadrado coincide com o do círculo. esse ponto comum é a grande encruzilhada do imaginário.
 A cruz tem, em consequência, uma função de síntese e de medida. Nela se juntam o céu e a terra… Nela se confundem o tempo e o espaço… ela é o cordão umbilical, jamais cortado, do cosmo ligado ao centro original. De todos os símbolos, ela é o mais universal, o mais totalizante. Ela é o símbolo do intermediário, do mediador, daquele que é, por natureza, reunião permanente do universo e comunicação terra-céu, de cima para baixo e de baixo para cima. Ela é a grande via de comunicação. é a cruz que recorta, ordena e mede os espaços sagrados, como os templos; é ela que desenha as praças nas cidades; que atravessa campos e cemitérios. A interseção dos seus braços marca as encruzilhadas; nesse ponto central ergue-se um altar, uma pedra, um mastro. Centrípeta, seu poder também é centrífugo. Ela explicita o mistério do centro. é difusão, emanação… mas também ajuntamento, recapitulação.

A cruz tem, ainda, o valor de símbolo ascencional. Numa adivinha medieval alemã, fala-se de uma árvore cujas raízes estão no inferno e a rama no trono de Deus e que engloba o Mundo entre os seus galhos. Essa árvore é, precisamente, a cruz. Nas lendas orientais, ela é a ponte ou a escada de mão pela qual os homens chegam a Deus. Em certas variantes, a madeira da cruz tem sete degraus, da mesma forma que as árvores cósmicas representam os sete céus.

A tradição cristã enriqueceu prodigiosamente os ímbolismo da cruz, condensando nessa imagem a história da salvação e a paixão do Salvador. A cruz simboliza o Crucificado, o Cristo, o Salvador, o Verbo, a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Ela é mais que uma figura de Jesus, ela se identifica com sua história humana, com a sua pessoa. Celebram-se festas da Cruz: a Invenção, a Exaltação da Cruz. Cantam-se hinos em sua honra: O Crux, spes unica. Ela também tem sua história: sua madeira veio de uma árvore plantada por Seth sobre o túmulo de Adão, e espalha fragmentos depois da morte do Cristo através de todo o universo, onde multiplica os milagres. E a cruz reaparecerá entre os braços do Cristo or ocasião do Juizo Final. Não existe símbolo mais vivo. Acresce que a iconografia cristã se apoderou dela para exprimir o suplício do Messias mas também a sua presença. Onde está a cruz, aí está o crucificado. A cruz sem cabeça (o tau, T); a cruz com cabeça e uma só barra horizontal; a cruz com cabeça e duas barras transversais; a cruz com cabeça e três barras transversais.

Os diversos sentidos que a simbólica lhe atribui não têm nada de absoluto. Eles não se excluem uns aos outros. Um não é verdadeiro e outro falso, Exprimem cada qual, uma percepção vivida e interpretada em símbolo.

A cruz em Tau simbolizaria a serpente ficada em uma estaca, a morte vencida pelo sacrifício. Já no Antigo testamento ela se revestia de um sentido misterioso. Foi por que a madeira do sacrifício que ele levava aos ombros tinha essa forma que Isaac foi poupado: um anjo deteve o braço de Abraão que ia imolar o filho.

A cruz com um braço transversal é a cruz do evangelho. Seus quatro braços simbolizam os quatro elementos que foram viciados na natureza humana, o conjunto da humanidade atraída para o Cristo dos quatro cantos do mundo, as virtudes da alma humana. O pé da cruz enterrado no chão significa a fé assentada em profundas fundições. O ramo superior da cruz indica a esperança que sobe para o céu; a envergadura da cruz é a caridade que se estende mesmo aos inimigos; o comprimento da cruz é a perseverança até o fim. A cruz grega, de quatro braços iguais, pode inscrever-se num quadrado. A cruz latina divide desigualmente o madeiro vertical segundo as dimensões do homem de pé, com os braços estendidos, e só pode ser inscrita num retângulo. Uma é idealizada, a outra realista. De um patíbulo os gregos fizeram um ornamento. As igrejas gregas e latinas foram geralmente projetadas para formar no solo uma cruz, grega no Oriente, Latina no Ocidente. Mas há exceções.

A cruz com dois braços transversais representaria, no braço superior, a inscrição derisória de Pilatos, Jesus de Nazaré, rei dos judeus. O braço inferior seria aquele em que se estenderam os braços do Cristo. é a cruz dita “de Lorena” mas que provém, na realidade, da Grécia, onde é comum.

A cruz com três braços transversais tornou-se um símbolo de hierarquia eclesiástica, correspondendo à tiara papal, ao chapéu cardinalício e a mitra episcopal. A partir do séc. XV, só o papa tem direito à cruz com três braços transversais; a cruz dupla se fez privativa do cardeal e do arcebispo; a cruz simples, do bispo.

Distingue-se igualmente a cruz da paixão e a da ressurreição. A primeira recorda os sofrimentos e a morte do cristo; a segunda de sua vitória sobre a morte. é por isso que ela é, em geral, adornada de uma bandeirola ou um galhardete e se parece com um estandarte ou labarum que o Cristo brandiria ao sair do sepulcro e cuja haste termina em cruz e não em ponta de lança… Já não é uma árvore, como na cruz da paixão, mas um bastão, diríamos, até, um cetro. é um patíbulo transfigurado.

CHEVALIER, Jean, GHEERBRANT, Alain, Dicionário de Símbolos, José Olympio Editora, 22ª Edição, 2008, pgg 309-317

Semana que vem a continuação do texto sobre A Cruz, esse símbolo tão difundido ao redor do mundo, e sua gama de significados.

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