O Muro de Cristal pt – 9

“Você ainda está aí?”, perguntou Arco-Íris. “O que há de novo?” “Bem, cá estou eu mais ou menos resignado a uma provavelmente longa e intensa…

talvez nobre… luta contra os níveis mais profundos do meu cérebro primitivo”, respondeu Barbatanas Vermelhas.

“Por que?”  “Por que o quê?” respondeu Barbatanas Vermelhas. “Para que lutar ou por que lutar contra um cérebro primitivo?” “Não… por que nobre? “, disse Arco-Íris.

“Desde o meu primeiro vislumbre da dimensão mais elevada”, explicou Barbatanas Vermelhas, “fui capaz de deduzir a existência de uma série de dimensões cada vez mais altas, conduzindo à Dimensão Maior, cuja natureza exata não consigo precisar, mas, de acordo com os meus cálculos, mesmo essa Dimensão Última deveria nos estar visível neste preciso momento, se soubéssemos como olhar”.

“E assim eu espero obter uma visão permanente das dimensões mais elevadas”.

“E no que isto viria a ajudar?”, perguntou Arco-Íris.

“Não tenho a menor idéia de como isto irá me ser útil, exatamente, mas eu sei que irá ajudar de alguma forma; talvez a visão da dimensão mais elevada venha de alguma forma a estimular mudanças; apenas um mero relance dela, durante o Tempo da Escuridão causou uma série de sensações estranhas e pouco familiares no meu corpo. Se ela pôde fazer isto”, acrescentou ele, “poderia finalmente produzir algum tipo de reação reflexa desconhecida e ordinariamente dormente no corpo, o que poderia ter algum efeito evolutivo”.

“Certamente valeria a pena tentar”, replicou Arco-Íris.

“Certamente que sim”, concordou Barbatanas Vermelhas, “alem disso, mesmo que o processo não tenha nenhum outro efeito, ainda assim seria interessante tentar seguir em frente com os assuntos ordinários da sobrevivência dentro do aquário e ao mesmo tempo, continuar a manter a perspectiva da dimensão mais elevada presente o tempo todo dentro da nossa consciência”, ressaltou Barbatanas Vermelhas.

“Sim, mas você não pode depender do sol desaparecendo em todos os momentos que você desejar ver a dimensão mais elevada”, acrescentou Arco-Íris.

“Isto é verdade”, admitiu ele, “eu terei de ajuntar tudo o que se conhece sobre o aquário, para que eu seja capaz de definir os limites exatos além dos quais eu desejo expandir a minha visão”. “Mas não é tão fácil descobrir coisas sobre o aquário”, disse Arco-Íris.

“É verdade”, admitiu Barbatanas Vermelhas e suspirou, “sou forçado a admitir para eu mesmo que sou um peixe de uma espécie definida, que possui limites territoriais embutidos e definidos e que, devido a isso, posso expandir as minhas próprias explorações pessoais e questionamentos até tais limites e não além”.

“Para minha informação, estou completamente dependente de fontes de pouca confiança, provavelmente”.

“E por quê? “, perguntou Arco-Íris.

“Porque”, respondeu Barbatanas Vermelhas, “o meu próprio conhecimento sobre o aquário, obtido de forma pessoal dentro dos meus imperativos territoriais, invisíveis, mas nem por isso menos imperativos, é limitado demais para que eu possa fazer deduções confiáveis”.

“Ainda assim, apesar do total e completo isolamento que existe entre as espécies – algo que eu esperava – e mesmo entre membros de uma mesma espécie – algo que eu não esperava – eu sei que a informação, de alguma maneira ou outra deve fazer o seu caminho lentamente de um domínio a outro do aquário, se filtrando de forma sutil e desapercebida por entre as solicitações mais urgentes da vida”.

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