O Muro de Cristal pt – 6

“Isto ensinaria aqueles bundas-moles”, disse ele e imediatamente notou que estava falando consigo mesmo, novamente, então cerrou firmemente a sua boca e ficou ali num silêncio teimoso.

Mas o sol continuou ali a brilhar com a sua luz laranja, e de certa forma, ele ficou contente. Na realidade ele não estava pronto para algo assim tão drástico, mas de outro lado podia perceber que o choque da sua nova percepção estava se diluindo rapidamente.

Talvez ele estivesse precisando de um novo choque para faze-lo seguir adiante ou então – e logo -, ele poderia vir a esquecer de tudo o que ocorrera e então talvez viesse a mergulhar de volta ao seu estado de esquecimento anterior e voltar a ser como todos os outros peixes.

Ele enviou os tentáculos do seu pensamento para a frente, procurando gerar uma imagem que abraçasse todo o aquário.

Ele imaginou o seu próprio e confortavelmente limitado universo como fazendo parte de uma diminuta porção de uma dimensão maior que o ele agora sabia que estava à sua volta.

Ele imaginou parentes vastamente maiores do seu próprio aquário, à medida que a sua mente corria livremente por sobre oceanos, mares, lagos, vibrando com a imensidade de tudo.

Os seus pensamentos se tornaram mais e mais poderosos, rompendo barreira após barreira, imaginando panoramas cada vez maiores, a sua visão voando em todas as direções, se expandindo para além e além e além.

Ele viu o turbilhão giratório e brilhante das luzes alaranjadas de trilhões de sóis tubulares enxameando em padrões fixos no interior de grandes agrupamentos galácticos retangulares, girando através de um oceano ilimitado e cristalino, tudo suspenso num equilíbrio delicadamente mantido, precisamente mantido, em relações de reciprocidade matemática.

A sua mente pulou, correu e deslizou por experiências situadas para aquém da capacidade de descrição das palavras, pensamentos e imagens até que finalmente, ele viu a si próprio flutuando numa imensa escuridão, que se estendia infinitamente para  todas as direções, ainda assim, com tudo preenchido até às bordas com a sua própria presença.

Ali ele se manteve, num perfeito equilíbrio naquilo que parecia uma eternidade que parecia que nunca mais iria acabar, suspenso momentaneamente no próprio centro daquele vácuo vazio e então, subitamente, ele caiu… numa espiral giratória e estonteante, percorrendo o caminho de volta para um corpo e mente de um peixe.

Num misto de surpresa e desgosto, ele olhou à sua volta, para se descobrir mais uma vez dentro do aquário. Ele procurou pela respiração que ele tivera mantido em suspenso até então, as suas nadadeiras rapidamente batendo contra a água para mantê-lo em equilíbrio contra a corrente suave que atravessava a água naquele momento.

Nariz de Garrafa havia voltado e estava olhando para Barbatanas Vermelhas com um olhar misto de curiosidade e de suspeitas.

“O que é que está acontecendo com você?”, perguntou ele, quando Barbatanas Vermelhas retornou do seu estado visionário.

“Não tem solução”, disse Barbatanas Vermelhas. “O que posso fazer? Estou aprisionado num corpo de peixe, com uma mente de peixe, condenado a uma vida relativamente curta dentro de um aquário selado”. “Ora, faça o que quiser fazer”, replicou Nariz de Garrafa.

“Não, não”, disse Barbatanas Vermelhas, “eu não estou falando das coisas ordinárias; eu estou falando de algo significativo… algo de real conseqüência não somente para mim…

algo que fique para muito além das ridículas satisfações desse pequeno mundo”.

“Pequeno?”, riu Nariz de Garrafa, “você chama esse mundo de pequeno? Você seria capaz de imaginar um mundo maior do que este?” “Imaginar, uma ova”, respondeu Barbatanas Vermelhas. “Eu vi esse mundo maior com os meus próprios olhos. Existe um mundo maior do que o nosso; muito maior”.

“Não deixe que isto o aborreça”, disse Nariz de Garrafa. “Certa vez eu vi algo parecido”.

Anúncios

Um comentário sobre “O Muro de Cristal pt – 6

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s