O Muro de Cristal pt – 5

Ele tinha de saber o que é que tudo aquilo significava. Será que os seus sentidos estavam lhe pregando peças? Tivera ele realmente visto aquilo que pensava ter visto? Com nada melhor em mente, ele continuou a sua observação imparcial das atividades no aquário, que agora lhe pareciam quase que coreografadas e orquestradas.

O seu olhar vagou ao redor dos confins do seu mundo e acabou recaindo naquele fantástico castelo cujas torres se erguiam para o alto, em direção à luz brilhante que penetrava as distantes camadas superficiais de uma água cristalina a não se saber quantas centenas, ou talvez milhares de milímetros sobre a sua cabeça. Ele se flagrou observando os outros habitantes das camadas intermediárias do aquário – os turbarõezinhos, os barrigas-vermelhas e os lebistes – com um tipo de indiferença transcendente, à medida que eles nadavam preguiçosamente ao longo de caminhos que ele sempre imaginara que fossem devidos ao acaso mas que ele agora percebia que eram padrões totalmente fixos, congelados.

Ele sabia que mesmo que eles viessem a ser motivados a se desviarem dos seus caminhos, o que não aconteceria acidentalmente mesmo num futuro imprevisível, eles  nunca seriam capazes de se desviarem sequer uma pequena fração daqueles corredores invisíveis daquele labirinto rígido, auto-criado e mantido psicologicamente.

Ele observou as outras criaturas, à medida que elas nadavam, se arrastavam ou ondulavam abrindo o seu caminho pelo aquário, numa intensa busca de quaisquer que fossem os seus objetivos fúteis e sem direção, que as impeliam numa atividade incessante.

Ele observou a tartaruga à medida que ela quietamente seguia os seus obscuros, enigmáticos, inescrutáveis… não, talvez fosse melhor descrevê-los como indiscerníveis interesses, ignorando industriosamente os outros habitantes do aquário.

Apesar de toda aquela aparente atividade, ficava óbvio num relance, que a multidão dos habitantes das camadas superficiais, intermediárias e do fundo tinham um contato extremamente limitado uns com os outros e que essa atividade era em si mesma inútil, dispersa, um espasmo nervoso acontecendo à medida em que eles cuidadosamente procuravam evitar qualquer contato entre si no desenrolar da sua busca incessante por comida.

Os outros peixes pareciam ter esquecido completamente tudo sobre o Tempo da Escuridão. Eles haviam retornado às suas rotinas mais uma vez, como se nada houvesse acontecido.

“Por mim eles podem continuar ignorantes, se é isto o que eles desejam”, entonou ele de forma mordaz, “mas não para mim. Não terei um único momento de sossego até que eu venha a conseguir toda a informação que eu necessito para conseguir compor esse quebra-cabeças antes que eu perca a minha sanidade ou termine como uma porção de gefilte fish colocada sobre a torrada de alguém”.

“O que é gefilte fish?”, berrou Lados Amarelos, quando ele entrou na conversa, vindo do outro lado da torre do castelo mais próxima.

“Não se preocupe com o gefilte fish”, acrescentou Arco-Íris, que havia acabado de sair de uma arca de tesouro enterrada na areia, onde estava aborrecendo uma coisa magra e comprida que lembrava uma minhoca, mas que não era, “o que é uma torrada?” “Eu não sei”, admitiu Barbatanas Vermelhas. “Eu estava apenas falando comigo mesmo”.

“Como sempre…” disse Arco-Íris.

“O quê?”, perguntou Barbatanas Vermelhas, pego de surpresa.

“Como sempre”, repetiu Arco-Íris, sem muita paciência. “Você estava falando com você mesmo novamente. Você faz isto o tempo todo!”  “Não faço”, teimou Barbatanas Vermelhas para o espaço que eles estavam ocupando momentos atrás. Arco-Íris e Lados Amarelos haviam saído rapidamente à procura de comida, deixando um rastro de bolhas no seu caminho.

Barbatanas Vermelhas olhou para o longo sol tubular que brilhava num tom laranja no céu, quase que esperando que a Escuridão descesse novamente… nem que fosse por alguns instantes.

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