O Muro de Cristal pt – 4

Ele se percebeu observando com repugnância a maneira pela qual os outros peixes reagiam uns para com os outros. Ele nunca havia notado as relações de dominância e submissão entre as espécies antes, mas agora, nesse novo e estranho estado de desligamento da realidade à sua volta, ele podia ver que alguns dos peixes eram muito agressivos e gregários enquanto que outros pareciam desejar evitar qualquer tipo de envolvimento – mesmo que momentâneo – a qualquer custo Pela primeira vez na sua vida, ele se encontrou perguntando o porquê parecia que alguns peixes nunca se aventuravam para longe da superfície da água enquanto que outros permaneciam no fundo do aquário, nunca se afastando demais da areia por todas as suas vidas e alguns deles, como ele, pareciam preferir – ele usou aqui a palavra “preferir” para indicar aquela força estranha e poderosa das diretivas biológicas internas contra as quais ele havia sempre lutado contra desde quando podia se lembrar – o meio do aquário.

Numa espantosa nova perspectiva, ele viu os escavadores do fundo do aquário não como indivíduos, mas como funções matemáticas do ambiente, como coletores de lixo, consumindo os materiais semi-microscópicos não-consumidos em decomposição que lentamente se filtravam num fluxo contínuo a partir dos níveis mais altos e que, de outra maneira, inundariam as pedras com lodo e limo.

“Inferno”, borbulho ele, “ninguém mais estaria disposto a comer aquela porcaria”.

“Certamente que ninguém quereria”, borbulhou o seu amigo Nariz de Garrafa, por detrás. Barbatanas Vermelhas não ficou sobressaltado nem assustado; era evidente que Nariz de Garrafa estava tentando assustá-lo e ele não queria lhe dar essa satisfação.

“Não,” disse Barbatanas Vermelhas, “provavelmente não”.

“É um trabalho sujo”, disse Nariz de Garrafa, balançando a sua cabeça lentamente de lado a lado, “mas alguém tem de faze-lo”.

“Eu sabia que você ia dizer isto”, replicou Barbatanas Vermelhas. “Mas você está certo.

Se não fosse pelos escavadores – deixando de lado momentaneamente a questão de que eles estão engolindo aquela porcaria de vontade própria e sabendo o que estão fazendo, ou então estão realizando a tarefa de forma completamente automática, como resultado de ordens profundas oriundas do DNA, alojadas em alguma obscura cadeia protéica.” “DNA?” , perguntou Nariz de Garrafa. “Cadeia protéica? Que diabos você está falando?” “Se eu soubesse, estaria falando com você agora? Respondeu Barbatanas Vermelhas.

Ele riu.

“O que há de tão engraçado?”, perguntou Nariz de Garrafa.

“Olhe para todos aqueles peixes engolindo os bocados de comida que os habitantes da superfície deixaram escapar.

“E daí?”, respondeu Nariz de Garrafa, “você vê isto todos os dias”.

“Sim, mas isto nunca havia me parecido engraçado antes”, respondeu Barbatanas Vermelhas.

“Mas o que há de engraçado nisto?”, desafiou Nariz de Garrafa.

“Um monte de coisas”, defendeu Barbatanas Vermelhas.

“Como o quê?” “Olhe quanta comida existe; o aquário inteiro está cheio de pedaços flutuantes de comida, mas os nossos amigos parecem estar num frenesi completo para consumir mais e mais, como se o alimento fosse acabar de uma hora para outra”.

“Mas certamente que eles estão comendo tudo o que podem”, disse Nariz de Garrafa, “quem é que não comeria assim?”  “Mas você não vê? disse Barbatanas Vermelhas: “Olhe para eles, esgotando rapidamente a sua força vital num festim incessante”.

“E daí, não estou compreendendo o que você quer dizer”, disse Nariz de Garrafa.

“O que eu quero dizer é que eles estão desperdiçando energia à procura de comida, não concorda comigo?” “Certo. Mas o que há mais para fazer, exceto talvez, fertilizar ovos?” concordou Nariz de Garrafa.

“Mas depois eles tem de sair em busca de mais comida para poderem repor a energia que gastaram em busca da comida!” exclamou Barbatanas Vermelhas triunfantemente.

“Não estou entendendo a piada” falou friamente Nariz de Garrafa, e saiu em busca de um pouco mais de comida ou para fertilizar alguns ovos, Barbatanas Vermelhas não conseguiu saber ao certo.

Ordinariamente, Barbatanas Vermelhas estaria junto com os demais peixes, participando do festim… mas no momento, a sua aguda indiferença havia conquistado o seu apetite.

Ele sentiu uma vaga sensação nas suas vísceras que ele sabia que não era causada pela fome; era uma sensação estranha, um sentimento de agitação insaciável que ele se recordava ter experimentado nos seus agitados anos de adolescência. Mas ele já não era mais um adolescente. Por que estão estava se sentindo daquela maneira? A sua vida havia sido destroçada pela escuridão e a visão das dimensões mais elevadas.

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