O Muro de Cristal pt – 3

Uma vez que não havia ninguém a quem ele pudesse se voltar para pedir ajuda, não se podia esperar que Barbatanas Vermelhas soubesse o que procurar e onde, ou mesmo como partir em busca de algo do qual ele possuía apenas um desejo indistinto e mal definido de alcançar.

Ele estudou o ambiente à sua volta com aquele estado observacional peculiarmente abrangente, englobante e desidentificado que havia lhe sido conferido desde o Tempo da Escuridão e que parecia que permanecera com ele muito tempo depois de que o aquário havia retomado as suas atividades rotineiras.

Cada criatura viva dentro do aquário parecia ter o seu lugar e função definida, e tudo se parecia ligado com tudo o mais.

Aos poucos, ele começou a perceber o fato de que os peixes dentro daquele aquário constituíam muito mais do que um mero mundo fora de contexto com qualquer outra coisa. Este fazia parte de algo muito maior e muito mais espantoso do que ele sequer poderia imaginar.

Ele nunca havia pensado muito sobre aquilo antes, mas ele viu – e de alguma maneira sentia que sempre havia sabido daquilo – que tudo no aquário possuía o seu lugar definido.

Cada um dos peixes tinha o seu papel necessário e inescapável dentro da hierarquia social e ecológica do aquário.

“Talvez nós todos fomos colocados dentro do aquário por aquelas imensas criaturas da dimensão mais elevada”, ponderou ele no meio das algas próximas, de cujo interior a cabeça do seu amigo Nariz de Garrafa emergiu, “… selecionados de acordo com umacompatibilidade mútua”, acrescentou ele.

“Você chama a isto de compatibilidade? Ironizou Nariz de Garrafa. “Simplesmente dê uma olhada para aquele bando de imbecis na superfície, lutando pelo almoço. E o que é que nós acabamos recebendo? Os restos daquilo que sobra depois que eles acabaram com tudo, é isto o que acontece!” “Eu sempre me perguntei,” continuou Barbatanas Vermelhas ignorando as queixas de Nariz de Garrafa, “por que nós nunca encontramos todos aqueles predadores mortais inimigos que nos descreviam quando éramos filhotes”.

“Aquilo tudo era um monte de bobagens para nos assustar e fazer com que obedecêssemos aos adultos”, replicou Nariz de Garrafa. “Não existe aquilo de um imenso oceano cheio de tubarões do tamanho do nosso universo inteiro”.

“Eu não acredito que tudo tenha sido mera invenção,” disse Barbatanas Vermelhas, “mas uma coisa é certa, nenhum de nós conseguiria sobreviver no meio deles… não num pequeno e auto contido ambiente selado, do qual não há escapatória”.

“Não há escapatória? Escapar para onde?” perguntou Nariz de Garrafa.

“Não sei”, disse Barbatanas Vermelhas, “mas se eu vier a descobrir, terei prazer em lhe contar”.

“Não se dê ao trabalho”, disse Nariz de Garrafa. “Por que haveria alguém de querer escapar daqui? Existe comida abundante”, acrescentou ele, à medida que deslizava em direção a bocados de comida que estava descendo em direção ao fundo do aquário.

Barbatanas Vermelhas não se sentia particularmente faminto. Estava mais fascinado pelo espetáculo de todos aqueles peixes nadando envolta do aquário. “Todos os outros peixes,” lembrou-se a si mesmo.

Por alguma estranha razão, desde a sua experiência durante o Tempo da Escuridão – não, na realidade fora vários minutos depois desta, mas com certeza, algo desencadeado pela sua visão das dimensões mais elevadas – ele havia parado de pensar sobre si mesmo como um peixe; ele havia começado a pensar sobre si mesmo como pertencendo a um outro tipo diferente de espécie – ou até mesmo não mais pertencendo a nenhuma espécie.

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