O Muro de Cristal pt – 2

“Deve haver mais na vida do que apenas a busca incessante por comida e boas conversas,” disse ele para ninguém em particular. Isto não era algo incomum. Ele raramente falava com outros peixes e quando o fazia, provavelmente seria com a sua amiga, Barbatanas de Prata.

Ele teria feito este comentário diretamente a ela, mas infelizmente ela se encontrava naquele preciso momento exatamente no outro lado do aquário e assim ele fez o melhor que podia: falou com um número de plânctons microscópicos que se encontravam por perto e que tentavam atrasar a sua inevitável ingestão ao tentar uma espantosa e dramática demonstração de intenso interesse naquelas palavras.

Se Barbatanas Vermelhas tivesse chegado a percebê-los, talvez não fosse tão rápido em engoli-los na próxima golfada de água que engoliu, mas como ele não os havia percebido, acabou engolindo-os de uma só vez.

“Deve haver mais nisto do que apenas isto” disse ele, continuando, mas eu não tenho a menor idéia do que possa ser”.

“O que?” perguntou de passagem uma barracuda miniatura.

“Nada”, respondeu Barbatanas Vermelhas algo grosseiramente. Ele estava pensando muito intensamente naquele momento.

“Nada?” , pressionou o outro peixe.

“O quê?” perguntou Barbatanas Vermelhas, confuso.

“Você disse nada”, replicou a barracuda, “mas eu ouvi distintamente você falar algo há alguns momentos atrás”.

“Eu disse,” respondeu Barbatanas Vermelhas, “que deveria haver mais nisto do que apenas isto, mas eu não tenho a menor idéia do que deva ser… ou algo parecido”.

“Mais do que nisto?”, perguntou a barracuda.

“Vida”, Barbatanas Vermelhas pensou que conseguira explicar.

“Oh”, disse a barracuda, rapidamente nadando para longe antes que a conversação se tornasse ainda mais perigosamente filosófica do que já estava se tornando.

Subitamente, num rasgo avassalador de intuição, Barbatanas Vermelhas percebeu a sua real situação: ele se viu como ele realmente era e estava.

Ele foi atingido pelo fato inescapável de que ele era um peixe… um peixe que vivia num aquário… cujas paredes podiam se tornar imprevisivelmente transparentes a qualquer momento, se o sol viesse a se apagar novamente, mesmo que por alguns instantes.

Ele sabia que logo por detrás do muro de cristal existia uma outra dimensão incompreensível, ordinariamente invisível e impensada, mas ainda assim ali presente, fosse ou não fosse vista por alguém. Essa constatação, embora não viesse a impressionar a maioria dos peixes, atingiu Barbatanas Vermelhas como se fosse um raio.

Ele sempre havia imaginado que as paredes do aquário fossem os limites mais longínquos de um universo confortavelmente finito; agora ele percebia que não se podia confiar nessas mesmas paredes para conterem e controlar essas perspectivas de quase infinito que estavam logo por detrás das suas superfícies reluzentes de zombeteira ilusão de segurança.

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