O Muro de Cristal pt – 1

Um amigo do trabalho me indicou este belo conto, que exprime de forma singela e profunda nossa percepção do mundo enquanto macro e microcosmo, nosso limitado ponto de vista enquanto seres pensantes, nossa busca por compreensão. Devido ao tamanho do texto, publico-o em partes.

O Muro de Cristal

Autor: Desconhecido.
Tradução: Instituto Nokhooja  Carlos Godo – 1991

Tudo começou no dia em que o sol se apagou no aquário. O sol na realidade não era um sol de verdade – era uma lâmpada elétrica – mas, até agora, Barbatanas Vermelhas, que, naquele preciso momento estava se alimentando da comida que havia justamente caído na superfície da água, sempre o havia chamado de “o sol” e sempre houvera pensado nele como parte permanente e imutável do seu mundo.

Levou algum tempo para que os seus olhos viessem a se acostumar às novas visões que surgiram depois que o aquário mergulhou na escuridão. Aquelas paredes de cristal espelhadas que cercavam o seu universo – que sempre o haviam mantido dentro dos seus domínios confortáveis e confinado as suas perspectivas dentro de um mundo parecido com uma caixa – se tornaram gradualmente mais e mais transparentes, finalmente revelando um mundo, impossivelmente imenso e incrivelmente novo que parecia estar povoado por pessoas – ele decidiu chamar aquelas criaturas de pessoas na falta de um termo melhor – criaturas espantosas que pareciam ser tão grandes quanto o seu universo inteiro! Aquelas imensas criaturas que se assemelhavam a balões se moviam impossivelmente lentas, flutuando vagarosamente frente ao seu olhar espantado, perseguindo alguma missão que lhe era completamente inimaginável.

Ele se sentiu como se estivesse flutuando no centro exato daquele mundo enorme que se havia aberto ao seu redor, e que ele poderia ser subitamente dominado para dentro daquela confusão brilhante e estonteante de novas formas e cores que invadiam o seu cérebro, colidindo com os símbolos limitados da sua perspectiva ordinária de mundo, e com isto, a sua mente explodiu com o impacto disso tudo.

A sua visão falhou completamente em se ajustar às novas perspectivas. Mesmo sabendo que as paredes de cristal o mantinham isolado da dimensão mais alta situada para fora do aquário, o seu corpo reagiu com a produção de novas e estranhas sensações à medida que tentava se adaptar ao novo ambiente, mesmo que não se encontrasse fisicamente dentro deste. Barbatanas Vermelhas – junto com todos os outros peixes do aquário – entrou num coma temporário, perdendo os sentidos e, quando recuperaram os sentidos, o sol estava novamente brilhando como sempre e todos, isto é, todos menos Barbatanas Vermelhas – continuou com os seus afazeres como se nada tivesse acontecido.

Talvez para eles nada tivesse acontecido, mas algo havia se modificado permanentemente em Barbatanas Vermelhas. Ele sabia que dali para a frente, ele nunca mais seria o mesmo peixe que antes.

“Deve haver mais na vida do que apenas a busca incessante por comida e boas conversas,” disse ele para ninguém em particular. Isto não era algo incomum. Ele raramente falava com outros peixes e quando o fazia, provavelmente seria com a sua amiga, Barbatanas de Prata.

Ele teria feito este comentário diretamente a ela, mas infelizmente ela se encontrava naquele preciso momento exatamente no outro lado do aquário e assim ele fez o melhor que podia: falou com um número de plânctons microscópicos que se encontravam por perto e que tentavam atrasar a sua inevitável ingestão ao tentar uma espantosa e dramática demonstração de intenso interesse naquelas palavras.

Se Barbatanas Vermelhas tivesse chegado a percebê-los, talvez não fosse tão rápido em engoli-los na próxima golfada de água que engoliu, mas como ele não os havia percebido, acabou engolindo-os de uma só vez.

(Na próxima semana, a continuação)

Anúncios

Um comentário sobre “O Muro de Cristal pt – 1

  1. […] Parte 1 Parte 2 Parte 3 Parte 4 Parte 5 Parte 6 Parte 7 Parte 8 Parte 9  Parte 10  -25.661323 -49.295395 CompartilheCompartilharGostar disso:GostoSeja o primeiro a gostar disso post. Deixe um comentário by Luciux on 10/04/2012  •  Link Permanente Postado em Filosofia Tagged autoconhecimento, filosofia, muro de cristal […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s